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A “Enseada do Absinto” e o “Poeta do Desassossego”

Fui chamado para participar de um encontro secreto com monges poetas estudiosos da obra do Fernando Pessoa.
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Pego o trem em Paranapiacaba que me deixa na entrada de uma trilha, entro nela e chego numa pequena cabana de madeira em meio a mata atlântica.
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Estou um pouco nervoso porque eles pediram pra eu separar algumas poesias e textos autorais para recitar durante o encontro.
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Entro na cabana e os poetas estão sentados em círculo, todos muito serenos, vestindo roupas coloridas e com livros nas mãos. Me cumprimentam e me oferecem vinho, eu aceito uma taça.
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No meio do círculo tem um violão. Um dos poetas pega a viola e recita sua poesia em forma de canção. Fico mais tranquilo e penso em qual música minha vou tocar. Penso em atacar de “Cama”.
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As canções são muito bonitas, quero registrar elas no meu gravador de mão, mas acho melhor não me arriscar, não sei se é permitido.
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O poeta mais velho vai até o centro do círculo, não pega o violão e fica em silêncio, faz um pouco de mistério e então conta pra gente que os oceanos do mundo inteiro se transformaram em bebidas alcoólicas, não existe mais o mar como era antes. Cada praia é formada por uma bebida diferente.
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Ele está com o livro do Desassossego do Fernando Pessoa e diz que tem um carro pronto para nos levar até a “Enseada do Absinto”.
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Fico triste porque não deu tempo de tocar minha canção minha pra eles e excitado pra chegar logo na praia
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Entramos num carro antigo bem grande e pegamos uma trilha de terra descendo a serra até chegar numa pequena enseada.
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Na hora me lembro do livro “Big Sur” e digo pra galera que o role está a cara do Kerouac.
 
Chegamos na praia deserta e ela é realmente de absinto, um verde claro maravilhoso, as ondas quebram com uma certa violência e sobe uma espuma colorida com a luz do sol.
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O cheiro de absinto deixa a gente tonto. O poeta do livro do Desassossego nos presenteia com garrafinhas pra encher com absinto, ele diz que pra gente só tomar da garrafinha quando voltarmos para nossas casas.
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Eu pego o violão pra tocar minha canção quando vejo chegar pela trilha o amigo Marcio Calixto, ele está com um violão colorido e chega muito feliz, diz que se atrasou pro encontro, mas que tinha acompanhado tudo pelo cinema.
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Ele senta com a gente e começa a tocar “Homem A Vagar”, composição muito bonita de sua autoria. Ele tinha gravado pra mim anos antes um CD com essa canção e eu costumava escutar ela direto no meu apartamento.
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Os poetas começam a entrar na praia e eu fui junto. O mar está agitado e as ondas são grandes. Tento não engolir muito absinto pra não ficar chapado demais e me afogar.
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Começo a pegar uns jacarés em meio as ondas de absinto, a sensação é muito boa, acho que vou ficar muito louco e saio da água
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Fico um pouco desorientado e sento na areia com o sol a pino. O visual do mar é maravilhoso, estou bêbado e fico imaginado como serão as outras praias, de rum, de conhaque, de vinho, de cerveja, fico pirando nos mares feitos de bebidas.
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Pego minha garrafinha de vidro, encho de absinto e tomo um gole. Lembro que “Poeta do Desassossego” tinha falado pra gente só tomar da garrafinha quando voltássemos pra casa.
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Procuro por ele e o vejo bêbado e distraído pegando ondas.
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Abro um sorriso e digo pro Marcio Calixto e um dos poetas que está do meu lado: – Que loucura boa que o Fernando Pessoa aprontou pra gente!

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